Um trilhão de reais é o valor justo a ser pago?

Estava a pôr-me em dia quanto às minhas atividades e às notícias quando recebi uma mensagem de meu amigo +Douglas Silva para comentar minha opinião a respeito da indenização de um trilhão de reais imposta ao Bradesco.

O quê? Um trilhão de reais? Para ser mais exato, 1,4 trilhão de reais! Mas vamos com calma, vamos primeiro aos fatos…

A super indenização de um trilhão de reais

Segundo o website da revista Exame, o banco Bradesco foi condenado a pagar uma pesada indenização, porém conseguiu escapar de seu pagamento. Ao menos é o que tudo indica até agora, segundo o poder judiciário.

O fato gerador de tal indenização foi a subtração de 4,5 mil reais da conta de um correntista no ano de 1994 por um rapaz que dizia querer ajudar o correntista (na época, aposentado, hoje, já falecido).

Bem, não sei como ocorreu tal episódio e não estaria tão certo quanto à devolução ou não do dinheiro – acredito que o dinheiro deva ser devolvido caso o delinquente em questão estivesse a se passar por funcionário do banco (no caso, uniformizado como tal), pois nesse caso o mesmo é responsável por realizar a fiscalização e evitar que isso ocorra, caso contrário é realmente muito difícil para o banco saber se quem está a ajudar aquele senhor é um parente ou um enganador.

Infelizmente, não consegui mais detalhes sobre o tal fato gerador, mas o que se sabe é que aquele senhor entrou com processo por danos morais e teve a causa ganha, sendo que o juiz determinou que o banco deveria indenizar o cliente em quantia diretamente proporcionou ao que ele precisaria desembolsar caso sua conta ficasse no vermelho e os juros do cheque especial fossem cobrado – valor que, em minha opinião, é mais do que justo, pois se o mesmo precisasse daquele dinheiro para pagar por algum produto ou serviço urgente seria isso o que ele deveria fazer, recorrer ao cheque especial!

O que aconteceu? O banco recorreu! O banco negou-se a pagar e recorreu, como é de costume vermos. A dívida, então, foi acumulando-se e, hoje, 18 anos após, seria…

1,4 trilhão de reais!

Epa! O número está certo? Estamos falando de R$ 1.400.000.000.000,00? É isso mesmo? É, é disso mesmo que estamos falando!

Só para se ter uma noção do tamanho desse valor, vale dizer que estima-se que o e-commerce (comércio eletrônico) faturará 1,25 trilhão de dólares (aproximadamente 2,5 trilhões de reais) no ano de 2013, segundo o website Internet Retailer. Em outras palavras, essa indenização equivale a mais da metade de todo o faturamento do comércio eletrônico a nível mundial previsto para o ano de 2013!

Mais uma vez, só para se ter uma noção, esse valor, se depositado em uma “pequena caderneta de poupança” e tivesse um rendimento médio mensal de somente 0,5%, renderia cerca de R$ 7.000.000.000,00 mensalmente (isso mesmo, 7 bi!). Que pena, tão pouquinho… Deixa essa poupança para mim! 🙂

E mais uma vez, só para que “tenhamos uma noção”, basta dizer que o PIB (poduto interno bruto) brasileiro em 2011 foi de R$ 4,1 trilhões, segundo o website da BBC. O PIB trata-se da soma do valor monetário de todos os bens e serviços produzidos em um país em um período, em outras palavras, o valor da indenização equivale a 34% de toda a produção de bens e serviços gerada pelo mercado brasileiro!

Pensei: será que esse valor não está muito extorsivo? Temos que determinar a taxa média mensal dos juros aplicados. Excel, por favor, venha aqui! Pronto, aqui está: a taxa de juros média aplicada foi de 9,476% a.m., que é realmente o valor que eles costumam cobrar de nós quando somos nós os devedores, não é mesmo?

Vejam só que interessante… Então, se você ficar devendo ao banco 4,5 mil reais por 18 anos, acabará por dever a ele R$ 1,4 trilhão! Entretanto, quanto aqueles mesmos 4,5 mil reais render-me-iam se depositados em uma caderneta de poupança, a juros de 0,55% a.m.? Excel! Aqui está: R$ 14,7 mil!

Ridículo isso, não? Concordo que a caderneta de poupança, devido à sua natureza e risco, renderá um valor muito baixo para o cliente naquele período. O que está absurdamente errado aqui é o quanto eu, você ou qualquer outra pessoa precisará pagar por aquele empréstimo por um valor durante o mesmo período: aproximadamente 95 milhões de vezes o valor final obtido com a caderneta de poupança! E então, Bradesco, agora você acha que seus juros são condizentes com as necessidades de seus clientes e deixa todos felizes?

Bem, não tenho costume de publicar aqui imagens para comentar tal tipo de atitude dos bancos, mas em virtude do acontecido, não resisti, baixei uma e editei só para ficar bem clara a reação que tive quando li como foi calculada a indenização:

Minha opinião sobre a indenização

Agora, uma “pergunta que não quer calar”:

É justa tal indenização?

Em minha opinião, o montante total não é um valor justo a ser pago ao cliente (na verdade, ao filho dele, já que o cliente veio a falecer durante o processo), pois é óbvio que é um valor bastante abusivo. É óbvio que o Bradesco nem mesmo possui condições de arcar com um montante tão alto quanto esse!

Entretanto considero que bancos em geral mereçam pagar indenizações tão altas quanto essas por cobrarem juros tão extorsivos quanto são os juros cobrados nos cheques especiais!

Se os juros cobrados no cheque especial fossem de 3%, um valor bem mais plausível e que não deixaria o banco “no vermelho” por cobrar “só isso”, tal indenização ficaria em torno de R$ 2,6 milhões. Uma redução de aproximadamente 525 mil vezes no valor.

Além disso, considero que o Bradesco mereça pagar por tal indenização, sim. Se o Bradesco tivesse pagado a indenização dentro dos primeiros seis meses após o fato gerador, mesmo a juros de 9,476% a.m. o valor total seria de somente R$ 7,7 mil, entretanto o banco não quis pagar e decidiu recorrer. Em outras palavras, se o valor é tão alto assim, acabou sendo por culpa do próprio banco que, em vez de assumir pagar a indenização em um montante menor, decidiu adiar tanto quanto pôde, recorrendo e o valor chegou ao que chegou.

Concordo em parte com a decisão do juiz que afirmou que o valor de R$ 1,4 trilhão trata-se de uma indenização extremamente abusiva, principalmente do fato gerador, entretanto acredito que se bancos não querem ser cobrados como tal, também eles não deveriam cobrar de seus clientes (se é que eles lembram que nós somos seus clientes!) da mesma forma.

Bem, espero que tenhamos deixado bem claro que, apesar de ser este um valor bastante extorsivo e abusivo, infelizmente é alcançável dentro do que é cobrado pelo cheque especial. 🙁

Ah, e antes de encerrar…

Uma mensagem para o Bradesco

Se você não gosta de pagar juros de 9,476% a.m. … Por que pensa que nós gostamos?

E então, amigo leitor, você acha que um trilhão de reais é o valor justo a ser pago?

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3 comments

  1. Douglad says:

    Como sempre muito esclarecedor, mas uma vez parabéns e obrigado!

  2. admin says:

    Fico feliz que tenha gostado, Douglas! Espero que este artigo demonstre também a outros o quanto os bancos lucram com tais juros extorsivos.

  3. Gabriel says:

    Voce acha mesmo que uma instituicao que LUCRA 3 BILHOES em um trimestre vai aprender ou vai melhorar algum procedimento interno por causa de uma multa de 2 milhoes? Defendo uma multa omerica, 1 Trilhao nao eh possivel? Que tal o Lucro trismetral entao? Tal como faz quando estamos no vermelho, e vao la e “rapa” tudo da conta pra cobrir os juros?

    Ta na duvida do lucro de 3 bilhoes? http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2012/07/lucro-do-bradesco-cresce-17-no-2-trimestre.html

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